Educação 4.0 - o que muda no ensino universitário - 40graus

Educação 4.0 – o que muda no ensino universitário


11/10/18 às 21:49

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Estudantes vão botar a mão na massa cada vez mais (Foto: Fotolia)

 

Unir a reflexão à prática. É esse o conceito que está ajudando a reformar currículos de cursos universitários. Se, tradicionalmente, os alunos recebiam uma formação mais teórica e abrangente, para, depois de formados, receberem um treinamento voltado às necessidades específicas do mercado de trabalho, agora a ideia é que a graduação já incentive o aluno a “colocar a mão na massa”, para que ele entenda como seu processo de aprendizagem pode contribuir para a resolução de problemas reais.

Essa mudança não vem à toa. Diante de todas as mudanças com as quais nos deparamos dia após dia, conforme as inovações tecnológicas são incorporadas às mais diversas áreas, fica cada vez mais claro que a aprendizagem precisa fazer parte de nossa vida, de forma contínua. Não dá mais para um engenheiro ou farmacêutico, por exemplo, achar que os conhecimentos adquiridos na faculdade serão suficientes para responder todas as questões com as quais vai se deparar ao longo da carreira.

E não se trata apenas da preparar o aluno para ele que consiga acompanhar as inovações à medida que elas chegam… Trata-se, sobretudo, de incentivar o espírito criativo dos estudantes, para que eles estejam à frente desse processo e proponham novas soluções para problemas que podem surgir ou se agravar nas próximas décadas – como é o caso dos desafios relacionados ao aquecimento global.
O que isso significa na prática? Para entender melhor como essa abordagem funciona, veja as iniciativas que vêm sendo adotadas em dois centros de ensino, um com foco em engenharia e outro, em medicina.

McCaster University, Ontario (Canada)
Em artigo sobre a importância da “experiential learning” (aprendizagem por meio da experiência, numa tradução livre), Ishwar K. Puri, que está à frente do departamento de engenharia na universidade, comenta que o nível de exigência aumenta quando se pede que o aluno aplique o conhecimento tanto dentro como fora da sala de aula. Mas essa cobrança pode ter, também, uma faceta lúdica, empolgante.

Ele cita como exemplo a competição internacional EcoCAR, em que os alunos trabalham com “muscle cars” (termos aplicado a uma grande variedade de veículos de alto desempenho), com o intuito de converter esses automóveis, que são abastecidos com gás, em veículos elétricos. Outro exemplo, ainda segundo ele, são os hackathons – verdadeiras maratonas em que estudantes competem para ver quem resolve problemas sociais e tecnológicos de grande complexidade. Por meio desses desafios, fica mais fácil entender e memorizar conceitos abstratos, de acordo com Puri.

Outra forma de motivar os alunos vem por meio da atuação social. Ajudar a reconstruir uma comunidade que tenha sido atingida por desastres naturais (furacões, enchentes) é algo que traz um sentimento de propósito, estimula a cidadania e demanda, do aluno, um olhar transdisciplinar. Afinal, esse tipo de problema apresenta várias camadas e, para efetivamente ajudar aquela comunidade, os alunos precisarão pensar fora da caixa, estabelecer conexões com pessoas de outras áreas e trabalhar de maneira colaborativa.

Além disso, Puri destaca que a “experiential learning” também envolve o engajamento dos alunos nas pesquisas científicas de ponta que são produzidas dentro do ambiente acadêmico. Estudantes de graduação vêm sendo estimulados a participar de projetos de pesquisa antes restritos aos alunos da pós-graduação e aos professores.

Dell Medical School, Texas (EUA)
A Dell Medical School, da Universidade do Texas em Austin, abriu as portas para sua primeira turma em 2016. Trata-se da primeira faculdade de medicina a ser criada numa universidade de ponta nos Estados Unidos, nos últimos 50 anos. Isso permitiu pensar a grade curricular do zero, adotando novidades que talvez fossem mais difíceis de implementar numa faculdade onde todo mundo já está acostumado a repetir as coisas “como elas sempre foram feitas”. O novo currículo privilegia a resolução de problemas em equipe, além de incentivar a multidisciplinariedade e a capacidade de liderança dos estudantes.
Segundo o reitor da Dell Medical School, Clay Johnston, a meta é preparar os estudantes para o sistema de saúde do futuro, que deverá apresentar algumas diferenças bem significativas em relação ao que temos hoje.

Uma dessas diferenças diz respeito ao modelo de remuneração – em vez do “pay per service”, em que o hospital recebe por cada procedimento realizado, cada exame feito, cada material utilizado e cada dia de internação, caminha-se para um modelo em que o pagamento será atrelado à performance. Traduzindo: hoje, de modo geral, os hospitais ganham mais quando um paciente tem complicações e fica dez dias internado, em vez de cinco; no pagamento por performance, o valor é fixo e, quanto mais eficiente o atendimento for (sem complicações, sem intervenções ou exames desnecessários), melhor pro paciente, pra equipe médica e pro hospital. No fim das contas, isso é bom para a sociedade como um todo, já que precisamos de um sistema de saúde economicamente sustentável para dar conta do aumento da demanda que virá com o envelhecimento populacional.

Nessa busca por mais eficiência, a tecnologia pode ser uma aliada fundamental dos profissionais de saúde. E algumas novidades – como a telemedicina ou o uso de inteligência artificial para acelerar diagnósticos – levarão a uma mudança do papel tradicional do médico. Um dos papeis da universidade é formar profissionais que estejam confortáveis com esse novo cenário, afirma Johnston.

Uma das medidas que mais chamaram a atenção, quando a Dell foi inaugurada, diz respeito à redução no tempo dedicado ao ensino de ciência básica – de dois anos, para um. Com isso, os alunos puderam ganhar um ano que é inteiramente voltado a projetos que envolvam inovação e liderança, desenvolvidos em equipe, com foco em soluções práticas na área de saúde.
Essa perspectiva influencia até a forma como os estudantes são selecionados na Dell: criatividade, paixão, capacidade de liderança e habilidade para trabalhar em equipe são requisitos cruciais. Uma vez aprovados, eles vão aprender, junto a professores e alunos de diversas áreas, a pensar no sistema de saúde como um todo – e não apenas no paciente quando este chega ao consultório reclamando de algum problema específico. Por isso, a universidade promove várias atividades que envolvem a comunidade local. Assim, os alunos podem investigar quais são os aspectos econômicos, sociais e culturais que afetam o bem-estar físico e emocional daquelas pessoas. E, com base nisso, pensar em soluções que busquem não apenas tratar a doença, mas sim promover a saúde.

fonte: Época Negócios

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