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Editorial: tudo o que é sólido se desmancha em nuvem

10/08/18 às 20:19

da reda o de poca neg cios

Carta Editor (Foto:  )


 

No princípio era o Henry, fundador de uma das maiores startups da história. Ao criar o que viria a ser o embrião da Ford, em uma garagem, na primeira metade do século 20, seu sonho era ter um produto escalável, capaz de alcançar um mercado global e mudar radicalmente a vida das pessoas. Tudo isso baseado numa metodologia inovadora, permitindo massificar a produção, estabelecer a linha de montagem, cortar custos e agilizar a entrega do produto ao consumidor.

Sandra Boccia (Foto: Editora Globo)

Era um período de revolução, e o empreendedor estava no Vale do Silício da indústria automobilística, ajudando a desenvolver um dos maiores mercados do mundo. Vamos chamá-la de Revolução Industrial 1.0. Até então, a força do homem era a principal energia utilizada para produzir itens de forma artesanal e doméstica. Na era das máquinas e da manufatura, nem mesmo Thor seria capaz de conter a força da energia motriz e dos motores a combustão, movidos a gasolina, a grande aposta de Henry Ford. O handmade da época foi substituído pelas exaustivas jornadas nas fábricas. Surgiu a nova organização do trabalho e a linha de montagem, que inspirou até a criação do McDonald’s.

Hoje esses modelos são questionados pelos atuais habitantes do planeta, prestes a embarcar no caminho sem volta da Revolução Industrial 4.0. Na narrativa do herói, os Musks e Kalanicks tentam reinventar a mobilidade para atender às novas demandas ambientais, comportamentais e econômicas. Chegou a conta das fontes primárias de energia utilizadas até então. Queimar petróleo, antes relacionado a progresso, está presente no imaginário coletivo como fator de poluição e mudança climática. É um cheque pré-datado, que nossos antecessores e nós mesmos (ao menos por enquanto) deixamos para os herdeiros do planeta Terra. Justamente pra eles, usuários do digital banking, que mal sabem o que é cheque.

Desconfiadas, as novas gerações viraram a cara para a indústria-símbolo de status e trocaram o seu primeiro veículo pelo sonho da bike elétrica. Outro dia, tentei levar um adolescente para ajudar a escolher meu carro novo. Achei que seria uma experiência interessante. Me vi diante de um analfabeto desinteressado em tudo o que diz respeito a esse ecossistema. Mesmo estudando engenharia, ele era incapaz de fazer um score mínimo distinguindo as marcas principais. Mas falava com orgulho sobre a magrela que se deu ao trabalho de trazer da Europa. É um novo Homo sapiens, que escolhe assinar serviços em vez de adquirir bens. Se precisarem se locomover além dos transportes públicos e das bicicletas oferecidas por bancos a preços baixos (você não achava que era de graça, certo?), eles tem à disposição o celular.

Esse aparelho incrível que me lembra a piada de como colocar cinco elefantes em um Fiat 500. Antes, era para nos livrar do telefone fixo e deixar o mundo no always on, depois dava para ouvir música e matar o iPod. A partir daí, tirar fotos com câmera fotográfica ficou brega, só permitido para profissionais. Então, o celular incorporou o carro. E esse é o meio de locomoção predileto dessas pessoas, que não conseguem compreender a briga por uma vaga em estacionamento de shopping no final do ano. Coisa de bárbaros. Essas mudanças são über. Estão acima de todas as outras, e para quem gosta de narrativas cheias de reviravoltas, batalhas épicas e um pouco de ficção científica, pega a pipoca para ler esta edição especial sobre o futuro da indústria automobilística.

Já estamos acostumados a ver as coisas se desmaterializando. Tudo que é sólido se desmancha em nuvem. Deve ser isso que os esotéricos chamam de quarta dimensão. Rádios vintage, com seus botões enormes, estão aí nos quiosques de aeroportos para os nostálgicos explorarem o sentido do tato. E o carro se transforma em códigos e sensores. Até o ronco daqueles motores famosos estão dando lugar ao silêncio dos elétricos. Em poucas décadas, serão peças de museu. Com essas mudanças, vem uma nova indústria. A que produz componentes como baterias elétricas autônomas, desenvolve mapas extremamente sofisticados, inteligência artificial que pode guiar por nós etc etc. Inicialmente, apenas por alguns segundos, para pegar o celular que caiu naquele vão impossível de alcançar. Mas em alguns anos, pretende nos tirar do volante.

São empresas de tecnologia que dão o tom à narrativa contemporânea. E talvez por isso o Google e a Apple imaginaram que poderiam ser as novas Ford e GM. Passado o susto inicial e a queda do império em Detroit e do valor das ações, as líderes do setor começaram a reagir e o impensável aconteceu. De rivais, estabeleceram programas de colaboração, fazendo suas áreas convergirem para desenvolver inovação. Essa coisa cara que só faz quem não tem noção alguma de onde está se metendo, como jovens empreendedores, visionários experientes como o Elon Musk ou novas ventures, que já nascem com bilhões e têm como progenitores antigos deuses do Olimpo automobilístico.

Nessa troca de cadeiras, empresas de software entenderam que podem ter um papel relevante, mas não necessariamente de substituto. Mesmo com o escândalo do dieselgate, a Volkswagen não saiu do páreo dos carros limpos. Depois do tropeço gigante e disposta a ser empresa líder em mobilidade elétrica e autônoma, a empresa criou a divisão e-mobility e pretende lançar uma Kombi elétrica em 2022.

O showroom da mobilidade acontece na Fórmula E, categoria criada exclusivamente para testar modelos e componentes dos carros elétricos. Você, assim como eu, pode nunca ter ouvido falar dessa modalidade. Mas ela já acontece no circuito Elizabeth Arden e possui equipes bancadas pela Renault, Jaguar e várias outras fabricantes, com exceção da Tesla. Nela correm os filhos dos campeões Alain Prost e Nelson Piquet, além do Felipe Massa. Da turma que acredita na total comoditização do carro estão a Uber —  sob a direção de um novo CEO —, a chinesa Didi Chuxing e outras empresas de compartilhamento focado em nichos. Antes de ser destituído por uma crise de imagem e gestão temerosa, Travis Kalanick, fundador da Uber, soube transformar o zeitgeist do desapego em um serviço essencial da gig economy.

A chinesa Didi Chuxing, compradora da 99, aproveitou a crise institucional do concorrente norte-americano e investiu para ser líder no transporte por meio de aplicativo, tornando-se acessível para 450 milhões de usuários no mundo. Imagine as informações sobre hábitos e locomoção de que eles dispõem. Melhor do que qualquer Fórmula 1, a rapidez com que essas mudanças estão acontecendo, os escândalos e as guerras de bastidores nos faz testemunhas de uma nova ordem. Em algumas décadas para algumas regiões, em alguns anos para outras, ter a posse de um carro pode ser encarado como atitude excêntrica. E dirigir, uma atividade não recomendada para humanos.

assinatura Sandra Boccia (Foto: D.)

 

fonte: Época Negócios

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