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“Política e narcotráfico estão muito ligados”, relata refugiado mexicano no Brasil

Refugiado mexicano que vive no Brasil
Gustavo Basso/R7

Pablo Vilela* os irmãos e a mãe deixaram o México em 2011 para se refugiar no Brasil. A gota d’água havia sido o sequestro e assassinato de uma jovem amiga da família, que contou com envolvimento da polícia local. Pablo Vilela, hoje com 21 anos, relata o sentimento de impotência de não poder contar com as autoridades em meio a uma epidemia de sequestros.

— Houve a troca de um governador líder de um cartel por outro de outra gangue. Política e narcotráfico estão muito ligados no México.

O México passa por uma epidemia de sequestros e homicídios. Segundo a Associação Civil Alto al Secuestro, de 2012 a 2016, 8.677 pessoas foram sequestradas, e quase 20% dos casos foram registrados no Estado de Veracruz, de onde os quatro saíram em meio à escalada na taxa de homicídios que em 2016 alcançou 15,5 pessoas a cada 100 mil habitantes. Eles são a maioria dos seis mexicanos refugiados no Brasil. Outros 11 aguardam aprovação do Ministério da Justiça, que registra mais de 10.400 estrangeiros com status de refugiados no Brasil.

Como refugiados, a família não pode visitar o México, nem mesmo para reencontrar o pai, que continua na cidade natal, Xalapa, ou mesmo para rever a avó pouco antes dela morrer. “Não faz sentido voltar para o país do qual estamos nos abrigando. Posso até ir para lá, mas não posso voltar”, conta, comentando que apesar da saudade, Veracruz ainda não é segura, apesar da taxa oficial de homicídios similar à de Santa Catarina, onde vive hoje a família.

Situado no meio do caminho entre produtores e o maior mercado consumidor de cocaína do mundo, os EUA, o México sofre com a guerra entre cartéis do narcotráfico em regiões fronteiriças e portuárias. Um conflito que envolve demonstrações de barbárie como quando nove corpos foram pendurados em um viaduto em Nueva Larido. Como agravante. policiais estão envolvidos em 75% dos casos, segundo dados de 2015 da ONG Consejo para la Ley y los Derechos Humanos, que relata ainda a morte de seis em cada dez raptados.

Leia abaixo o depoimento de Pablo Vilela ao R7.

“Cresci com meus pais e meu dois irmãos em uma cidade mexicana chamada Xalapa, no estado de Veracruz. É um estado às margens do Golfo do México, portuário, então é muito importante para a navegação, e também para o transporte de drogas. Minha mãe é parteira e meu pai, escultor; lá tínhamos a condição financeira de uma família de classe média normal.

Em 2010 houve a troca de mandato de governador do Estado. Saiu um que seria chefe de um cartel [Fidel Herrera; que entre 2015 e 2017 foi cônsul mexicano em Barcelona, é acusado de enriquecimento ilícito por corrupção, de trabalhar com o cartel de drogas Los Zetas e de comprar remédios falsos para crianças e adolescentes com câncer], e entrou outro governador que era a imagem de liderança de outra gangue [Javier Duarte Ochoa, que foi preso em abril de 2017 na Guatemala acusado de corrupção, de administrar água destilada como remédio para câncer e de comprar de exames de HIV falsos]. Com isso, começou uma guerra por território no Estado entre os dois cartéis. Quem tivesse mais poder militar teria mais área sob domínio e mais controle.

Muitas vezes os cartéis davam sinais um ao outro para intimidar, como matar pessoas e deixá-las expostas penduradas em pontes, por exemplo.

Política e narcotráfico estão muito ligados no México. Até então, o antigo governador mantinha a situação sob controle. Com a troca, começaram os casos de sequestros, venda de órgãos, venda de mulheres. Principalmente entre adolescentes como eu e meus irmãos, na época com 15, 18 e 12 anos.

Começaram a desaparecer muitos estudantes, principalmente de escolas públicas. Eu estudava em escola particular, mas um professora de escola pública, amiga da família, contou na que apenas na escola onde ela lecionava desapareciam seis estudantes por mês. Gente que ia para a escola e não voltava mais. 

Eu mesmo tive amigos que quase foram sequestrados: eles estavam saindo de uma boate para buscar algo no carro e na volta perceberam que uma caminhonete grande, filmada, começou a segui-los devagar. Eles saíram correndo, e a caminhonete acelerou para acompanhar. Eles contam que naquela hora alguém saiu da boate e conseguiram entrar, mas a caminhonete ainda ficou dando voltas na frente.

Com tudo isso, minha mãe já nem nos deixava caminhar na rua, mesmo de dia, porque a qualquer hora você estava caminhando, parava uma van do outro lado, e você podia não voltar para casa. Até que uma amiga da minha mãe teve a filha sequestrada.

Após o desaparecimento da filha, ela até entrou em contato com a polícia, mas os policiais mesmos encobrem os sequestros porque estariam envolvidos. Ela tinha contatos com agências de publicidade e espalhou cartazes pela cidade, em ônibus… Não se calou. A maioria das pessoas ligava para a polícia, que não fazia nada, e se sentiam completamente impotentes. Essa mãe até sofreu ameaças de morte para se calar.

Até que um momento deram um jeito, meses depois, de aparecer o corpo da filha, já deteriorado a 300 metros da casa da mãe. As autoridades justificaram que esteve ali o tempo todo, sem que ninguém percebesse.

Mas este é apenas um caso de que se soube, porque ela foi atrás, saiu na imprensa. Houve muitos outros em que ninguém fez nada, ninguém soube nada. Numa cidade próxima, Boca del Río, 35 corpos foram largados no meio da rua.

A morte da filha da amiga foi um baque para minha mãe. Ao ponto de ela dizer que não dava mais para vivermos em Xalapa sob estas condições. Um dia ela disse: “nós vamos ter que sair. Vocês escolham aonde vamos, e eu vou com vocês”. Sabíamos que mudar apenas de cidade ou Estado não adiantaria, porque o país estava muito ruim. Até mesmo o presidente Enrique Peña Nieto foi eleito por fraude nas eleições; todos sabem que ocorreu, mas ninguém pode fazer nada [Quem acusa Peña Nieto de fraude é o candidato derrotado, Andrés Manuel López. Segundo a OEA, entidade observadora, o pleito foi tranquilo e confiável].

Escolhemos o Brasil por termos boas memórias de uma viagem feita em 2005. Chegamos aqui em 2011 e fomos morar em Florianópolis, na casa de um amigo da minha mãe, enquanto meu pai continua no México até hoje.

Burocracia e o impedimento de ver a avó uma última vez

A condição de refugiado não o permite visitar o México sem autorização de órgão do Ministério da Justiça
Gustavo Basso/R7

Ao chegarmos aqui como turistas, tudo fluiu bem; conseguimos casa, carro, CPF, e começamos o trâmite para o abrigo como refugiados, o que foi difícil, na verdade. O órgão para refugiados — Conare — é muito pequeno, tem pouca gente, demorou muito. Entramos com o pedido, eles nos deram um protocolo para não ficarmos ilegais e poder trabalhar, e informaram que o trâmite poderia demorar até um ano. Levou três para recebermos os documentos definitivos. Nossa chegada coincidiu com o terremoto no Haiti, e a vinda de muitos haitianos para o Brasil, por isso demorou mais.

Nestes cinco anos não voltamos para o México porque nem podemos. Como refugiados, não faz sentido voltar para o país do qual estamos nos abrigando. Posso até ir para lá, mas não posso voltar. Perco meu refúgio e devo ficar fora do Brasil o mesmo tempo que permaneci dentro do país antes de voltar.

O Conare diz que em casos extremos pode permitir a viagem, mas em 2015 minha avó estava morrendo e não deixaram minha mãe visitá-la. Somente através de um contato da minha ex-namorada nos Direitos Humanos ela conseguiu viajar, mas não deu tempo, porque quando minha chegou, minha avó já havia morrido.

Nós pretendemos ficar por aqui; nenhum de nós se vê morando no México por um bom tempo. Claro que temos saudade, mas lá ainda não está bom para viver. E aqui está ótimo. O que mais sinto saudade é do meu pai e alguns amigos, que ficaram em Xalapa, e minha família.

A maioria dos meus amigos de Xalapa também saíram do México. Há gente morando na Nova Zelândia, nos EUA, na Suécia… hoje pergunto para os que ficaram como está a situação, e eles dizem que está mais tranquilo, mas não sei se já estão acostumados, ou se realmente está mais tranquilo.

O pior de tudo é que nós tivemos condições de sair, mas muita gente não tem condições ou recursos financeiros para fazer algo assim. Além da viagem, você precisa ter condições de se estabelecer no lugar por um tempo. E isso é muito duro; as pessoas precisam ficar lá, aguentando, sem poder contar com a polícia, que às vezes é até pior que os bandidos.”

*Os nomes da família foram alterados por segurança.

fonte: R7